Fita Verde no Cabelo: Nova Velha Estória — Guimarães Rosa

Fita Verde no Cabelo: Nova Velha Estória, de João Guimarães Rosa, como o próprio subtítulo diz, parte de uma velha história Chapeuzinho Vermelho e recria uma nova velha estória. 

Diferente do original, substitui a obediência de Chapeuzinho pela livre escolha de Fita-Verde ao tomar o caminho mais longo, ao invés de seguir o outro, o encutoso.

Entre outros, nos mostra também, um lobo ausente, exterminado pelos lenhadores e, que se manifesta no final da história,  simbolizando o medo, quando Fita-Verde se vê sem sua fita verde e sem a avó e  é obrigada a enfrentar seus medos, angústias, solidão e o sentimento de culpa, por ter chegado tarde demais à casa de sua avó.

Pode-se dizer ainda que as metáforas do texto desencadeiam uma vasta rede de leituras possíveis que atingem qualquer tipo de leitor, não importando a época.

Assim, é possível dizer que a fita da cor verde, por si só revela um mundo de significações, como: pode indicar não maduro no que se refere às coisas da natureza; é  também, uma cor que indica um novo ciclo que se inicia; por  convenção universal, verde está ligada à cor da esperança; e, neste conto, pode-se relacionar a cor verde ao desabrochar da menina para a vida e que ao perdê-la no caminho,  depara com a dolorosa passagem e  transformação da infância para a adolescência.

Neste conto, Guimarães Rosa, não só nos surpreende e encanta,  pela alegria e êxtase da protagonista diante da exuberância da natureza no novo caminho louco e longo,  por ela mesma escolhido — o que não acontece em Chapeuzinho que segue o caminho indicado pela mãe — como também, por abordar temas como a morte que faz com que a protagonista do conto acorde para a realidade da morte e para uma tomada de consciência.

O conto Fita Verde no Cabelo: Nova Velha Estória, circulou pela primeira vez, no jornal O Estado de S. Paulo, no dia 8 de fevereiro de 1964, onde o leitor, que não era criança, a quem habitualmente os contos de fadas se dirigem —  representava um leitor adulto, envolvido num contexto político conturbado, que,  provavelmente, provocou estranhamento, já que não era comum em jornais a presença de textos regidos pelo tradicional ... Era uma vez … . 

Nesse caso, o leitor, possivelmente teve, em primeiro lugar, que se desvencilhar de preconceitos literários  de que adulto não lê histórias para crianças, e, em segundo, operar a relação das imagens do conto com a dos outros textos do mesmo jornal.

Fita Verde no Cabelo – Nova Velha Estória, conto de Guimarães Rosa, primeiro foi publicado no livro Ave, Palavra, mas  foi em 1992, vinte e oito anos após a publicação de Fita Verde no Cabelo no jornal O Estado de S. Paulo, que ganhou uma edição própria da editora Nova Fronteira  e com ilustrações  de Roger Mello.

Pode-se destacar dois momentos importantes para o entendimento da estória. O primeiro momento ocorre  na apresentação do espaço físico e psicológico da aldeia , que nos dá um retrato dos moradores do lugar, por meio de verbos no pretérito imperfeito.

"Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que cresciam."

Assim, enquanto os velhos velhavam, os adultos aguardavam o momento de também, a exemplo dos mais velhos, velhar. A atitude é de intensa passividade, não se manifestando nenhum traço de rebeldia, mas, pura e simplesmente, de aceitação incontestável.

As crianças, por sua vez, é que aparecem dotadas de movimento, posto que nasciam e cresciam e ainda não tinham sido neutralizados pela ação do tempo.

É o mito do eterno retorno surgindo no ciclo vital com a infância, a ingenuidade e a inocência caracterizadas, essencialmente, na personagem da meninazinha de fita verde no cabelo, o que nos leva a dizer que nesse conto, a velhice não traz experiência, pois velhos e velhas apenas “velhavam”.

O leitor, mais atento, vai observar uma mudança no ritmo da narrativa, quando a menina, num impulso criativo — o que não é comum no conto de fadas tradicional — após ser solicitada pela mãe a ir visitar a avó, muda de caminho.

No segundo momento, o  narrador ao apresentar o caminho e a paisagem,  em forma de imagens, rouba a cena da protagonista e, nesse momento, ver  se torna o foco do conto, no qual a natureza contemplada parece estar em êxtase, como a própria natureza da menina na estória.

"Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vindo-lhe correndo, em pós. Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeinhas flores, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto por elas passa. Vinha sobejadamente."
 
O autor traz uma jovem que se auto apresenta como pronta, que ao passar desapercebida no bosque, vai anunciando pelo caminho que é enviada pela mãe à casa da avó, em um lugar distante, para levar mantimentos e que leva consigo cesto, pote e fita verde no cabelo.

Contudo, o pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, para buscar framboesas, portanto, as framboesas podem representar as experiências colhidas ao longo do percurso da vida. Atravessando o bosque, viu só lenhadores que por lá lenhavam e nenhum lobo, pois os lenhadores o tinham exterminado, desse modo, a menina podia seguir tranquilamente à casa da vovó que a estava esperando acolá, depois daquele moinho.

...Ela mesma resolveu escolher tomar esse caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso ...

O encanto da viagem cede lugar ao desencanto, quando Fita-Verde chega à casa da avó e a encontra fraca e moribunda, faz com que acorde para a realidade da morte e para uma tomada de consciência, o que nos leva a pensar sobre o fluxo e o refluxo da vida.

O ponto culminante deste conto fica por conta do final onde Guimarães Rosa cria um sentido dúbio do que aconteceu, realmente,  com a velhinha.

A morte da avó é apresentada como uma experiência de vida que irrompe para a menina em sua simbólica viagem e que sugere o processo de iniciação e de autoconhecimento, pela consciência da perda do primeiro adorno da cabeça, a fita — bem material e simbólico e, pela perda da avó,  bem humano e insubstituível,  fazendo com que o sentimento do medo,  pela primeira vez,  leve a menina a um outro plano de suas percepções.

Assim, pode-se dizer que,  quando a avó ouve o chamado da neta e diz:  – Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençoe., sugere-nos  a abertura e a entrada da menina em outro mundo, do qual ela sairá transformada.
 
A avó estava na cama e pela primeira vez na vida, Fita-Verde deparou-se com a imagem da velhice escancarada, que se opunha ao desabrochar que estava vivendo.

Podemos dizer que Fita Verde na Cabeça de Guimarães Rosa, mantém o aspecto corporal, porém,  diferencia do conto original, quando fala do abraço; a lástima pelo fato não poder ver mais; e, sobretudo, o beijo: os lábios para beijar estão no lugar dos dentes para comer e, por outro lado, a reação da menina , aqui, é outra: sua perplexidade não é com o tamanho (como são grandes),  dos braços, pernas, orelhas, olhos e dentes da avó-lobo do conto de Perrault, mas a neta foca os vários elementos corporais que indiciam o fim:
os braços são magros que não vão poder nunca mais abraçá-la;
os olhos, fundos e parados que já não conseguem vê-la;
os lábios são arroxeados que não mais poderia beijá-la;
a extensão das mãos tão trementes; enfim,  todos apontando para  a perda definitiva imposta pela morte:  já não, nunca mais.

A resposta da avó se dá numa dicção cada vez mais frágil, numa gradação, ela murmurou, suspirou e gemeu.  ... Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez ... e seu desolamento é tamanho que a faz gritar num último apelo à avó: Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!

Ao final, sem a presença da avó, sem sua fita verde e com medo do lobo, Fita-Verde precisará fazer a viagem de volta sozinha e enfrentar seus medos; descobrir seus próprios mecanismos de defesa contra o lobo que lhe causa pavor; recriar seus conceitos;  descobrir-se capaz de ser ela mesma, ascendendo assim a um novo estágio de vida.

Fita Verde no Cabelo — Nova Velha Estória
Autor: João Guimarães Rosa
Editora: Nova Fronteira, RJ
Ilustrações: Roger Mello
Edição: 13ª, 1992 
Preço:  De R$15,90  a  R$22,90
Livros Pra Ler e Reler

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"Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo
vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser
um crocodilo porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranqüilos e escuros
como o sofrimento dos homens."
João Guimarães Rosa