A Menina e o Pássaro Encantado – Rubem Alves

Para o adulto que for ler esta estória para uma criança. Esta é uma história sobre a separação: quando duas pessoas que se amam têm de dizer adeus… e depois do adeus, fica aquele vazio imenso: a saudade...

Como seria bom se não houvesse despedidas… Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. Para que sejam deles, para sempre… Para que não haja mais partidas…

Entretanto, que é a saudade que torna encantadas as pessoas. A saudade faz crescer o desejo. E quando o desejo cresce, preparam-se os abraços.

Esta história, eu não a inventei. Fiquei triste, vendo a tristeza de uma criança que chorava uma despedida… E a história simplesmente apareceu dentro de mim, quase pronta.

Para quê uma história? Quem não compreende pensa que é para divertir. Mas não é isso. É que elas têm o poder de transfigurar o quotidiano. Elas chamam as angústias pelos seus nomes e dizem o medo em canções. Com isto, angústias e medos ficam mais mansos.


Claro que são para crianças — especialmente aquelas que moram dentro de nós, e têm medo da solidão…


Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo. Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.

Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar.

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Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades…

As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava.


Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…


— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…


E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.


Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.

— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga.

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As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes...

E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.


Mas chegava a hora da tristeza.


— Tenho de ir — dizia.


— Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar…


— E a menina fazia beicinho…


— Eu também terei saudades


— dizia o pássaro. — Eu também vou chorar.


Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios…

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E o meu encanto precisa da saudade.
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É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas.

Se eu não for, não haverá saudade.

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Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.
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Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria.

E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada:


 “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”


Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera.

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Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar.

Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse.

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E adormeceu feliz.

Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…


— Ah! menina… O que é que fizeste?


Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias…

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Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…

A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente.

Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste.

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E veio o silêncio: deixou de cantar.

Também a menina se entristeceu.

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Não, aquele não era o pássaro que ela amava.

E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…

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Até que não aguentou mais. Abriu a porta da gaiola.

— Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…


— Obrigado, menina. Tenho de partir.


E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar.

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Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós.

Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito.


Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar… E partiu.


Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.


— Que bom


— pensava ela


— o meu pássaro está a ficar encantado de novo…


E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.

— Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…


Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro.

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Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar.

Ah! Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…


E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento:


 “Quem sabe se ele voltará amanhã….”


E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.


A menina e o Pássaro Encantado

Autor: Ruben Alves
Editora: Loyola
Preço: De R$ 8,00 até R$ 20,54
Livros Pra Ler e Reler

Tags:
Alves, menina, pássaro, encantado, história, saudade, feliz, amor.